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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Tropecei no alfabeto logo ao nascer


Tropecei no alfabeto logo ao nascer, caí no verbo
Invejei poetas, dizeres ímpares
Palavras seculares, versos românticos
Invoquei-os
Não ouvi respostas
Apenas o eco do silêncio
Percebi então que faço melhor do que eles
Aprendi a florir flores
A salgar o sal e a adoçar o doce com a entrega de palavras
Que ainda não nasceram
As mesmas que me habitam a alma
Aplaudi-me
Percebi que melhor que ser poeta,
É ser palavra


Mia Couto

domingo, 30 de agosto de 2009

Bordados de mim...


Sou assim...
Prosa e poesia
canto e lamento
alegria e solidão

rosa nascida na pedra
ave de asas cortadas
vulcão que ainda fumega
chuva em pleno verão

Sou assim...
Metáfora bordada
nos versos do poema
que o tempo não apaga

Sou, enfim,
bordados de mim

Ariadna Garibaldi

O poeta é um fingidor


O poeta é um fingidor

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.